Ramnit distribui Ngioweb para formar rede massiva de proxies maliciosos

Ramnit distribui Ngioweb para formar rede massiva de proxies maliciosos

Campanha Black usou bots Ramnit para reinstalar Ngioweb e transformar máquinas infectadas em infraestrutura de proxy com modos relay e back-connect.

ComponenteBotnet Ramnit Black e malware Ngioweb, usado como proxy multifuncional em hosts Windows infectados.
VetorBots Ramnit recebiam do C&C uma instrução para baixar e executar o Ngioweb por protocolo binário próprio; amostras também foram vistas empacotadas com Ramnit em um mesmo dropper, provavelmente distribuído por spam.
ImpactoNo início de julho de 2018, a campanha indicava mais de 139.000 computadores com Ngioweb, além de cerca de 100.000 infecções observadas em dois meses na operação Black.
PrioridadeIsolar hosts com sinais de Ramnit ou Ngioweb, procurar persistência por tarefas agendadas e executáveis em caminhos anômalos, e bloquear comunicação com infraestrutura C&C defangada associada.
ArtefatosForam observados o C&C 185[.]44[.]75[.]109, o domínio ngioweb[.]su, chave RC4 com valor black, uso de msiexec.exe para hollowing e nome de arquivo msiexic.exe no fluxo de distribuição.
CapacidadesNgioweb oferece proxy back-connect e relay, suporte a IPv4, IPv6, TCP e UDP, além de comunicação com dois estágios de C&C.
Resumo técnico

A operação Black do Ramnit ampliou o uso da botnet para distribuir Ngioweb, um malware de proxy projetado para transformar computadores comprometidos em nós de encaminhamento de tráfego. A campanha observada entre maio e julho de 2018 alcançou aproximadamente 100.000 infecções em dois meses e, no início de julho, os dados de numeração de bots indicavam mais de 139.000 máquinas com Ngioweb. O volume muda a leitura operacional do caso: não se trata apenas de fraude bancária tradicional associada ao Ramnit, mas de uma camada de infraestrutura clandestina capaz de mascarar serviços, encaminhar conexões e usar o endereço IP da vítima como ponto de saída.

A botnet Black foi associada ao servidor C&C 185[.]44[.]75[.]109, distinto da botnet Ramnit Demetra citada como anteriormente prevalente. O nome Black deriva do valor black usado como chave RC4 no tráfego dessa botnet. O servidor já estava ativo desde 6 de março de 2018, mas a baixa capacidade inicial reduziu sua visibilidade. A expansão posterior mostrou que o Ramnit estava sendo usado como mecanismo de entrega e reinfecção do Ngioweb: sempre que o bot Ramnit consultava o C&C, podia receber uma ordem para obter e iniciar um executável adicional por meio do protocolo binário do próprio Ramnit.

O Ngioweb foi descrito como um proxy multifuncional com protocolo binário próprio e duas camadas de criptografia. Ele opera com modos back-connect e relay, aceita IPv4 e IPv6 e trabalha sobre TCP e UDP. Essa combinação permite ao operador acessar serviços remotos aparentando origem no host infectado, alcançar recursos internos visíveis a partir da máquina comprometida e construir cadeias de proxies para esconder serviços atrás de endereços pertencentes a bots. Para defesa, o ponto central é tratar a infecção não apenas como presença de malware local, mas como possível abuso do endpoint como infraestrutura de rede.

Fluxo técnico

O fluxo de entrega envolve o Ramnit como precursor. Durante o check-in do bot com o C&C, o servidor pode responder com uma instrução do tipo getexec, que faz a máquina baixar e executar um binário adicional. O contexto observado indicava uso do esquema dml, isto é, download pelo protocolo binário do Ramnit em vez de HTTP, e um nome de arquivo msiexic.exe para o executável recebido. O parâmetro de tempo de vida da instrução permitia que a ordem fosse repetida depois de expirar, o que cria um mecanismo de reinstalação enquanto o Ramnit permanecer ativo no sistema.

Depois de implantado, o Ngioweb usa uma arquitetura de C&C em dois estágios. O estágio 0 informa ao malware qual servidor de estágio 1 deve ser usado; essa primeira consulta ocorre por HTTP sem criptografia. O estágio 1 passa a controlar o malware por canal criptografado. Essa separação dificulta a interpretação completa da topologia, porque o endereço entregue pelo estágio 0 pode representar infraestrutura do operador ou outro bot usado dentro da cadeia. Em termos defensivos, isso significa que a análise de um único destino de rede pode não revelar toda a rota de comando e proxy.

A capacidade de proxy é o componente mais sensível da operação. No modo back-connect, o operador pode intermediar acesso a um serviço remoto por meio da máquina infectada. No modo relay, a infraestrutura pode encaminhar tráfego e encadear nós, permitindo que serviços controlados pelo operador fiquem ocultos atrás de IPs de vítimas. O mesmo modelo também pode alcançar recursos internos acessíveis a partir do host comprometido, caso a máquina tenha conectividade para redes privadas ou segmentos corporativos. O impacto confirmado no material analisado é o uso de hosts infectados como proxies; qualquer conclusão sobre roubo de dados, movimentação lateral ou comprometimento adicional depende de evidências específicas que não aparecem no material recebido.

No endpoint, o malware cria uma sequência de processos e injeta seu código. O primeiro estágio citado usa msiexec.exe por meio de process hollowing. Em seguida, já dentro desse processo, o malware tenta criar outros processos para receber o payload, e a atividade maliciosa principal ocorre no último processo da cadeia. Para evitar múltiplas instâncias, o Ngioweb cria e verifica um mutex com nome pseudoaleatório. A comunicação entre threads usa as APIs PostQueuedCompletionStatus e GetQueuedCompletionStatus, o que fornece pistas para análise de comportamento em memória e engenharia reversa de amostras.

Superfície afetada

A superfície afetada é composta por estáções Windows já comprometidas por Ramnit ou por droppers que carregavam Ramnit e Ngioweb juntos. O material aponta distribuição provável por campanhas de spam para amostras empacotadas, mas o principal vetor de prevalência do Ngioweb foi a botnet Black. Isso torna a presença de Ramnit um indicador de risco para instalação repetida do proxy: remover apenas o Ngioweb sem eliminar o bot Ramnit pode permitir nova execução da ordem de download quando o bot voltar a consultar o C&C.

A persistência do Ngioweb usa três métodos e caminhos gerados com lógica que tenta se misturar ao sistema. O malware escolhe pastas filhas em Program Files, %APPDATA% ou %LocalAppData%, evitando nomes como Temp, Common Files e Uninstall Information. Em seguida cria subpastas pseudoaleatórias, procura nomes de arquivos .exe ou .dll para derivar o nome do executável salvo e, quando não encontra candidatos, gera nomes próprios. O arquivo gravado recebe timestamps alinhados aos de ntdll.dll, uma técnica que reduz a utilidade de caça baseada apenas em data recente de criação.

Além do local principal, o malware cria uma subpasta derivada do número de série do volume e também grava uma cópia em %TEMP%. O material indica que a pasta e o arquivo criados nesse caminho temporário dependem de valor hard-coded, portanto tendem a ser iguais entre máquinas infectadas pela mesma lógica. Arquivos e pastas são protegidos com a API EncryptFile, e nomes de tarefas agendadas são gerados pela mesma função usada para mutexes e eventos. A configuração fica criptografada, usando os primeiros 32 bytes do bloco como chave AES-256 e APLib para descompressão.

  • Hosts Windows com Ramnit ativo e comunicação periódica com C&C podem receber novamente o Ngioweb após remoção parcial.
  • Caminhos sob Program Files, %APPDATA%, %LocalAppData% e %TEMP% devem ser revisados quando houver arquivos executáveis com nomes derivados de DLLs ou EXEs locais.
  • Ambientes nos quais endpoints têm acesso a serviços internos sensíveis ficam mais expostos ao modo de proxy que opera a partir da própria máquina infectada.
Hunting e telemetria

A investigação deve começar pela correlação entre sinais de Ramnit e comportamento de proxy. Em rede, procure consultas HTTP do estágio 0 com query string composta por letras aleatórias e User-Agent fixo, seguidas por comunicação criptografada com estágio 1. A presença de tráfego para 185[.]44[.]75[.]109 ou referências ao domínio ngioweb[.]su deve ser tratada como indicador de investigação, com defang e bloqueio em controles de segurança. Como a arquitetura pode encadear bots, conexões para endereços residenciais ou corporativos incomuns também precisam ser avaliadas pelo padrão de tráfego, não apenas por reputação.

No endpoint, a cadeia envolvendo msiexec.exe é um sinal relevante quando combinada com criação suspeita de processos, hollowing, arquivos executáveis em diretórios de perfil de usuário e tarefas agendadas com nomes pseudoaleatórios. A caça deve observar discrepâncias entre timestamp e origem real do arquivo: a cópia pode herdar tempos semelhantes aos de ntdll.dll, então filtros simples por data de modificação podem falhar. Também é útil procurar uso de EncryptFile em diretórios onde aplicações legítimas não costumam criptografar seus próprios executáveis.

A telemetria de EDR deve destacar injeção de código, criação de processo a partir de executável recém-gravado em subpasta incomum, mutexes de formato não reconhecido e uso de APIs de fila de conclusão em processos que não justificam esse padrão. Em logs de tarefas agendadas, nomes gerados e apontando para executáveis fora de diretórios esperados são candidatos fortes. Em proxy e firewall, a defesa deve procurar hosts internos que passem a apresentar sessões TCP ou UDP com volume e destino incompatíveis com o perfil do usuário, especialmente quando o endpoint não deveria atuar como intermediário de tráfego.

  • Conexões para C&C defangado 185[.]44[.]75[.]109 e referências ao domínio ngioweb[.]su em DNS, proxy, EDR ou memória de processo.
  • Criação ou execução anômala de msiexec.exe seguida de injeção, hollowing ou execução de binário em %APPDATA%, %LocalAppData%, %TEMP% ou subpastas incomuns de Program Files.
  • Tarefas agendadas com nomes pseudoaleatórios apontando para executáveis criados por usuário ou por processo sem relação com instalação legítima.
  • Tráfego de endpoint comum atuando como relay ou back-connect, com conexões TCP e UDP para destinos diversos e sem justificativa de negócio.
Mitigação

A resposta deve considerar a cadeia inteira. Um host com Ngioweb precisa ser isolado da rede para impedir uso como proxy e para preservar evidências de memória, processos e arquivos. A remoção deve cobrir o Ramnit, porque ele é o mecanismo que pode reinstalar o Ngioweb por instrução do C&C. Depois da contenção, revise tarefas agendadas, diretórios de persistência, cópias em %TEMP%, executáveis com timestamps artificiais e arquivos protegidos por EncryptFile. A erradicação parcial reduz sintomas, mas não interrompe a lógica de reinfecção se o bot Ramnit continuar operacional.

No perímetro, bloqueie indicadores defangados confirmados em DNS, proxy e firewall, sabendo que a infraestrutura pode mudar e que bots podem funcionar como nós intermediários. Regras baseadas somente em IP serão insuficientes contra uma rede de proxies distribuída; combine reputação, perfil de tráfego, detecção de processo de origem e comportamento de endpoint. Em ambientes corporativos, limite a capacidade de estáções comuns iniciarem conexões arbitrárias para fora ou aceitarem fluxos que caracterizem relay, principalmente em segmentos com acesso a serviços internos.

A validação pós-incidente deve incluir varredura de hosts que se comunicaram com a mesma infraestrutura, busca por artefatos de Ramnit e Ngioweb, revisão de caixas de e-mail ou controles antispam quando houver suspeita de dropper distribuído por mensagem, e análise de qualquer endpoint que tenha servido como origem de tráfego incomum. Como o Ngioweb pode permitir acesso a recursos internos a partir da máquina infectada, logs de aplicações e serviços acessíveis por esse host devem ser revisados para conexões no período de infecção. A prioridade é reconstruir a janela de atividade e confirmar se o uso observado ficou restrito ao proxy ou se houve ações adicionais suportadas por evidências locais.

  • Isolar máquinas com sinais de Ramnit ou Ngioweb antes de remover artefatos, preservando memória, lista de processos, conexões e tarefas agendadas.
  • Eliminar Ramnit e Ngioweb no mesmo ciclo de resposta para impedir reinstalação por comandos recorrentes do C&C.
  • Bloquear C&C e domínio defangados observados, mas complementar com detecção comportamental para relay, back-connect e tráfego de proxy.
  • Revisar acessos internos originados de hosts infectados durante a janela de comprometimento, sem assumir impacto adicional sem evidência.

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