Redaman esconde endereços de comando e controle na blockchain do Bitcoin

Redaman esconde endereços de comando e controle na blockchain do Bitcoin

Variante do malware bancário reconstrói o IP do servidor C2 a partir de valores de transações associadas a uma carteira Bitcoin codificada no binário, dificultando bloqueios baseados apenas em infraestrutura estática.

ComponenteRedaman, malware bancário anteriormente reportado como RTM banking Trojan, com rotina para localizar servidores C2 por meio da blockchain do Bitcoin.
VetorCampanhas de phishing voltadas principalmente a falantes de russo distribuem o malware; após a execução, o binário consulta transações recentes de uma carteira Bitcoin codificada.
ImpactoO endereço IP do C2 é reconstruído a partir de valores de transações, permitindo troca dinâmica de infraestrutura sem depender de IPs fixos embutidos no malware.
PrioridadeProcurar endpoints que consultem APIs públicas de blockchain logo após infecção por phishing, correlacionar a carteira 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ e bloquear comunicação com o C2 defangado 185[.]203[.]116[.]47 quando observado.
ArtefatosCarteira Bitcoin 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ, valores de transação 0.00052153 BTC e 0.00012148 BTC, e consulta HTTP a serviço público de blockchain.
IoCsIP C2 citado no contexto: 185[.]203[.]116[.]47; carteira Bitcoin associada à técnica: 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ.
Resumo técnico

Uma variante do Redaman, malware bancário observado desde 2015 e também associado ao nome RTM banking Trojan, passou a usar a blockchain do Bitcoin como mecanismo de descoberta de comando e controle. O ponto central da técnica não é minerar criptomoeda nem movimentar grandes valores, mas transformar transações públicas em um canal indireto de configuração. Em vez de carregar somente um endereço IP fixo dentro do binário, a amostra consulta uma carteira Bitcoin previamente codificada e interpreta valores de pagamentos recentes como material para recompor o endereço do servidor C2. Essa abordagem desloca parte da infraestrutura de configuração para um registro público, distribuído e resistente a remoções simples.

O fluxo documentado envolve a carteira 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ e a recuperação das últimas dez transações associadas a ela. A partir das duas últimas transações de pagamento relevantes, o malware extrai valores decimais, converte esses números para hexadecimal, rearranja bytes e reconstrói quatro octetos que formam o endereço IP final. O exemplo citado no contexto resulta no C2 185[.]203[.]116[.]47, derivado dos valores 52153 e 12148, representados nas transações como 0.00052153 BTC e 0.00012148 BTC. Para defesa, isso cria um sinal misto: há tráfego aparentemente legítimo para uma API de blockchain, mas a finalidade real é obter infraestrutura de controle.

A técnica é relevante porque reduz a eficácia de controles que dependem apenas de IPs codificados no malware ou de indicadores estáticos extraídos de uma amostra isolada. Se o operador alterar os valores publicados em transações futuras, uma mesma lógica no endpoint infectado pode apontar para outro servidor sem que o binário precise ser recompilado. Ao mesmo tempo, a cadeia deixa rastros próprios: carteira específica, padrão de consulta a transações recentes, conversões numéricas incomuns dentro do processo e comunicação subsequente com o IP reconstruído. Esses elementos permitem construir detecção comportamental, principalmente quando combinados com evidência de phishing, execução de malware bancário e conexões HTTP para serviços de blockchain.

Fluxo técnico

A cadeia começa com distribuição por phishing, com alvo predominante em usuários falantes de russo. Após a execução no sistema comprometido, o Redaman não depende apenas de um endereço de comando e controle literal embutido no arquivo. O binário contém a referência à carteira Bitcoin e realiza uma requisição do tipo GET para obter um conjunto limitado de transações recentes. A consulta citada usa uma API pública de blockchain para recuperar os últimos registros da carteira, o que pode parecer tráfego comum de consulta financeira ou de software legítimo que interage com criptomoedas. O uso defensivo desse detalhe exige correlação com processo, linha do tempo, origem da execução e ausência de justificativa de negócio no endpoint.

O mecanismo de codificação usa valores de transação como portadores de informação. No exemplo, o operador parte do IP 185[.]203[.]116[.]47 e converte seus octetos para hexadecimal, obtendo os bytes B9, CB, 74 e 2F. Os dois primeiros octetos são agrupados com inversão de ordem para produzir CBB9, que em decimal corresponde a 52153. Os dois últimos passam pelo mesmo raciocínio e geram 2F74, equivalente a 12148. Esses números aparecem como valores fracionários de Bitcoin em pagamentos ligados à carteira, permitindo que o malware recupere o conteúdo sem que o endereço IP apareça diretamente na transação como texto.

Na etapa de decodificação, o Redaman lê os valores das duas transações de pagamento, remove a escala usada no valor em Bitcoin, converte os números decimais de volta para hexadecimal e separa os bytes. Depois, inverte a ordem dos pares para reconstruir os quatro octetos do IP. O resultado é usado como destino de comando e controle. O contexto também indica que a carteira não era reconhecida como maliciosa em bases de blockchain mencionadas, o que mostra uma limitação comum de reputação isolada: uma carteira pode não ter histórico suficiente para ser classificada, mas ainda assim servir como mecanismo de configuração para malware.

A técnica chamada de encadeamento se apoia em uma propriedade operacional importante: o atacante consegue atualizar a infraestrutura publicando novas transações de baixo valor, enquanto o malware precisa apenas consultar registros recentes e aplicar a mesma lógica de transformação. Diferentemente de domínios DGA, que costumam deixar padrões em DNS, esse método desloca a resolução para uma API de terceiros e para dados financeiros públicos. O defensor deve tratar a consulta à blockchain como parte da cadeia de controle quando ela ocorrer em processos sem relação legítima com carteiras, exchanges, nós de criptomoeda ou softwares de contabilidade.

Superfície afetada

A exposição principal recai sobre estáções de trabalho e ambientes de usuário final atingidos por phishing, especialmente onde anexos, documentos ou links maliciosos conseguem iniciar a execução do Redaman. Como o malware é bancário, a superfície de risco inclui navegadores, sessões autenticadas, sistemas usados para operações financeiras e máquinas de usuários que acessam serviços bancários ou administrativos. O contexto não confirma roubo de dados específico nesta variante, portanto o impacto técnico sustentado é a capacidade de estabelecer ou localizar infraestrutura C2 por meio de transações Bitcoin e manter comunicação dinâmica após a infecção.

Sistemas de segurança que bloqueiam somente IPs conhecidos podem perder visibilidade quando o binário não carrega um destino estático final ou quando esse destino é atualizado fora do malware. Proxies corporativos e ferramentas EDR podem observar uma sequência útil: execução originada de vetor de phishing, acesso a serviço público de blockchain, interpretação de valores de transação e conexão posterior com o endereço reconstruído. Ambientes que permitem acesso irrestrito a APIs externas reduzem a chance de distinguir tráfego legítimo de consulta de criptomoedas de tráfego usado como configuração maliciosa.

A carteira 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ é um artefato relevante para busca histórica, mas não deve ser tratada como único ponto de controle. O comportamento é mais importante que o indicador isolado: uma amostra pode carregar outra carteira, outro serviço de consulta ou outro esquema de escala numérica, mantendo o mesmo princípio. A superfície também inclui logs de proxy, DNS, firewall, endpoint, memória de processo e telemetria de rede capaz de correlacionar o acesso à API com o C2 resultante.

  • Endpoints de usuários expostos a phishing e execução de malware bancário Redaman.
  • Processos sem função legítima de criptomoeda realizando requisições HTTP para APIs públicas de blockchain.
  • Controles baseados apenas em IP fixo ou reputação de carteira, sem correlação comportamental.
  • Ambientes em que tráfego para serviços de blockchain não é categorizado, revisado ou associado ao processo de origem.
Hunting e telemetria

A investigação deve partir da cadeia temporal. Um caso suspeito combina recebimento ou abertura de conteúdo de phishing, criação de processo anômalo, consulta a serviço de blockchain e conexão posterior com infraestrutura externa que não aparece de forma clara em configuração local. Em logs de proxy, a consulta à carteira 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ é um pivô direto para busca histórica. Quando o ambiente armazena corpo de resposta ou metadados de URL, a presença de parâmetros de limite para poucas transações recentes pode reforçar a hipótese de recuperação automatizada de configuração.

No endpoint, a defesa deve procurar processos que façam chamadas de rede para serviços de blockchain sem relação com navegadores, carteiras autorizadas ou aplicações conhecidas. A sequência de conversões decimal-hexadecimal e manipulação de bytes é mais difícil de observar diretamente sem análise de memória ou engenharia reversa, mas pode aparecer como constantes, rotinas aritméticas ou buffers contendo os valores B9, CB, 74 e 2F próximos da rotina de rede. O IP 185[.]203[.]116[.]47, quando presente em conexões subsequentes, deve ser correlacionado com a consulta anterior à carteira, não analisado como evento isolado.

A telemetria de rede pode identificar o padrão em duas camadas. A primeira é o acesso à API de blockchain a partir de hosts que não têm justificativa para esse tipo de tráfego. A segunda é a conexão de saída para o IP reconstruído após a resposta da API. Em ambientes com inspeção TLS limitada, ainda é possível usar metadados como processo de origem, domínio de destino da API, volume pequeno de dados, intervalo curto entre consulta e conexão C2 e repetição em múltiplos hosts. Em EDR, a busca deve incluir artefatos do Redaman e do antigo nome RTM banking Trojan quando essa nomenclatura estiver indexada.

A carteira citada também permite uma verificação de escopo: hosts que consultaram dados relacionados a ela podem ser priorizados para triagem. No entanto, a ausência desse artefato não elimina a técnica, porque o operador pode trocar a carteira ou alterar a forma de consulta. Detecções robustas devem combinar indicador, categoria de tráfego, processo, sequência de eventos e comportamento pós-consulta. Para reduzir falso positivo, diferencie máquinas de usuários comuns de sistemas que realmente executam clientes, integrações ou auditorias relacionadas a Bitcoin.

  • Requisições de processos incomuns para APIs de blockchain, especialmente logo após execução originada por phishing.
  • Consulta associada à carteira 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ em logs de proxy, DNS ou firewall.
  • Conexões de saída para 185[.]203[.]116[.]47 após consulta a transações Bitcoin.
  • Valores 0.00052153 BTC e 0.00012148 BTC aparecendo em análise de resposta, memória, sandbox ou relatório de execução.
  • Processos com baixa reputação realizando conversões numéricas e tráfego HTTP antes de comunicação C2.
Mitigação

A resposta deve começar pela contenção dos endpoints com evidência de execução do Redaman ou de comunicação com o C2 reconstruído. Isolar a máquina, preservar memória quando viável e coletar logs de proxy, DNS, EDR e firewall ajuda a confirmar se a consulta à blockchain foi usada como etapa de configuração. Como o vetor de distribuição é phishing, a investigação também deve recuperar mensagens, anexos, URLs e usuários impactados, sem transformar a análise em execução de amostras fora de ambiente controlado. O bloqueio do IP 185[.]203[.]116[.]47 é adequado quando observado, mas não substitui a detecção da técnica de resolução via blockchain.

Em controles preventivos, restrinja ou monitore o acesso a APIs públicas de blockchain a partir de estáções que não precisam desse tipo de serviço. Quando o bloqueio amplo não for aceitável, use política por grupo, processo e destino, com alerta para executáveis recém-criados, diretórios temporários ou processos derivados de documentos e clientes de e-mail. A carteira citada pode ser usada como indicador em ferramentas de análise de URL e proxy, desde que acompanhada por lógica comportamental para identificar variações. Em EDR, crie consultas que correlacionem execução suspeita, conexão com serviço de blockchain e comunicação externa subsequente.

A mitigação também passa por reduzir a chance de execução inicial. Fortaleça filtragem de phishing, análise de anexos, bloqueio de macros quando aplicável, verificação de reputação de arquivos e treinamento focado em mensagens que simulam contexto financeiro ou operacional. Para equipes de resposta, mantenha um procedimento específico para malware que resolve C2 por fontes públicas: capturar o primeiro tráfego de rede, preservar URLs consultadas, registrar valores retornados e comparar o destino final com conexões posteriores. Essa abordagem evita depender exclusivamente de uma lista de IPs que pode mudar com novas transações.

Após a contenção, valide se houve comunicação C2 efetiva e se o host executou outras cargas. O material analisado confirma a técnica de descoberta de C2, não uma lista completa de ações pós-comprometimento; portanto a investigação deve permanecer baseada em evidência local. Revise credenciais usadas no endpoint afetado, sessões bancárias ou administrativas acessadas durante a janela de infecção e alertas de autenticação anômalos. Quando a infecção for confirmada, reimagem ou limpeza controlada, rotação de senhas expostas no host e revisão de regras de saída reduzem o risco de persistência e recorrência.

  • Isolar endpoints que consultaram a carteira citada e depois se conectaram ao C2 defangado 185[.]203[.]116[.]47.
  • Bloquear ou monitorar APIs de blockchain em estáções sem necessidade operacional, com exceções documentadas.
  • Correlacionar phishing, execução de processo, consulta à blockchain e comunicação externa em EDR, proxy e firewall.
  • Usar a carteira 1BkeGqpo8M5KNVYXW3obmQt1R58zXAqLBQ como pivô de hunting, sem tratá-la como único indicador.
  • Revisar credenciais e sessões usadas no host infectado durante a janela de atividade confirmada.

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