Ecossistema de ransomware manteve volume alto no terceiro trimestre de 2025 com fragmentação de RaaS e retorno do LockBit

Ecossistema de ransomware manteve volume alto no terceiro trimestre de 2025 com fragmentação de RaaS e retorno do LockBit

Mais de 85 sites de vazamento registraram 1.592 vítimas no trimestre, enquanto afiliados migraram para operações menores, Qilin ampliou atividade e LockBit 5.0 voltou com variantes para Windows, Linux e ESXi.

ComponenteEcossistema de ransomware com dupla extorsão, sites de vazamento de dados, programas RaaS e operadores como Qilin, LockBit 5.0, Akira, INC Ransom, Play, Safepay, DragonForce, Warlock e The Gentlemen.
VetorIntrusões conduzidas por afiliados com exfiltração de dados, implantação de criptografia e pressão por publicação em sites de vazamento; a fragmentação ocorre após interrupções ou dormência de grandes marcas RaaS.
Impacto1.592 novas vítimas publicadas em sites de vazamento no terceiro trimestre de 2025, volume próximo ao trimestre anterior e 25% acima do terceiro trimestre de 2024, com exposição recorrente de dados corporativos e interrupção operacional.
PrioridadePriorizar redução de exposição inicial, monitoramento de exfiltração, preparação de resposta a ransomware, proteção de ESXi e validação de restauração sem depender de promessa de descriptografia dos operadores.
ArtefatosSites de vazamento de dados, notas de resgate do LockBit 5.0 com identificador individual, portais privados de negociação, fóruns RAMP e XSS, painéis de afiliados e extensões aleatórias de 16 caracteres em arquivos cifrados.
MitigaçãoRevisar controles de identidade e acesso remoto, segmentar infraestrutura de virtualização, bloquear caminhos de exfiltração, testar backups offline, acionar retenção de logs e preparar hunting por atividade de staging e negociação.
Resumo técnico

A atividade de ransomware no terceiro trimestre de 2025 permaneceu em patamar elevado, com 1.592 novas vítimas listadas em mais de 85 sites de vazamento de dados acompanhados no período. O número ficou muito próximo das 1.607 vítimas do segundo trimestre de 2025, mas superou de forma relevante as 1.270 vítimas do terceiro trimestre de 2024. Na prática, o ritmo observado ficou entre aproximadamente 520 e 540 organizações publicadas por mês, indicando estabilidade operacional em um nível historicamente alto, não uma retração efetiva da ameaça.

O dado mais importante para defesa não é apenas o volume total, mas a mudança estrutural do mercado criminoso. A concentração em grandes programas de ransomware como serviço diminuiu, enquanto operadores menores passaram a publicar vítimas de forma independente ou por marcas recém-criadas. Dos 85 sites de vazamento acompanhados, 47 grupos publicaram menos de dez vítimas no trimestre. Esse padrão sugere uma dispersão de afiliados que antes dependeriam de plataformas maiores e agora conseguem operar com infraestrutura própria de vazamento, negociação e pressão pública.

A fragmentação também aparece na participação dos grupos mais ativos. No primeiro trimestre de 2025, os dez principais operadores concentravam 71% das publicações em sites de vazamento. No segundo trimestre, essa fatia caiu para 63%. No terceiro trimestre, chegou a 56%. Ao mesmo tempo, 14 novos grupos começaram a publicar vítimas apenas no terceiro trimestre, elevando para 45 o total de novos atores observados ao longo de 2025. Para equipes de defesa, isso reduz a utilidade de acompanhar somente marcas tradicionais, porque afiliados, ferramentas e procedimentos podem reaparecer sob nomes diferentes sem que o fluxo de intrusão mude de forma proporcional.

A pressão policial sobre grandes plataformas afetou marcas, painéis e administradores, mas não eliminou a capacidade de execução dos afiliados. Quando uma operação RaaS é encerrada, fica inativa ou perde reputação, os operadores que realizam acesso inicial, movimentação lateral, exfiltração e implantação de criptografia tendem a migrar para outro programa ou lançar um site de vazamento próprio. Esse comportamento ajuda a explicar por que a média mensal subiu de cerca de 420 vítimas no segundo e terceiro trimestres de 2024 para aproximadamente 535 no mesmo intervalo de 2025.

Fluxo técnico

O fluxo dominante continua sendo a dupla extorsão. A intrusão inicial não é detalhada para todos os casos, mas o modelo operacional inferido pelas publicações envolve acesso ao ambiente da vítima, coleta e exfiltração de dados, preparação de pressão pública e, quando viável, criptografia de servidores, estáções ou infraestrutura virtualizada. O site de vazamento atua como mecanismo de coerção: a vítima recebe acesso a um portal de negociação e enfrenta ameaça de publicação caso não pague no prazo definido pelo operador. A eficácia desse modelo depende menos de uma vulnerabilidade única e mais da combinação de credenciais comprometidas, contas com privilégios excessivos, ausência de segmentação e baixa visibilidade sobre transferência de dados.

Qilin foi o operador mais ativo no trimestre, com média aproximada de 75 vítimas por mês, acima das 36 registradas no primeiro trimestre de 2025. O aumento coincide com a saída de afiliados de programas como RansomHub e BianLian, atraídos por uma divisão financeira descrita como elevada, entre 80% e 85% para o afiliado. O modelo separa responsabilidades: o afiliado conduz intrusão e exfiltração, enquanto a marca fornece infraestrutura, site de vazamento, negociação e coordenação. Essa divisão cria escala, porque operadores com diferentes níveis técnicos podem reutilizar a camada de extorsão de uma marca conhecida sem construir toda a operação.

LockBit voltou a aparecer como vetor relevante com o lançamento do LockBit 5.0 em setembro de 2025. A versão nova substituiu compilações 4.0 ainda vistas até abril de 2025 e passou a ser oferecida a novos afiliados mediante depósito em Bitcoin de cerca de US$ 500 para acesso ao criptografador e a um painel atualizado. Mais de 15 vítimas distintas foram identificadas após o anúncio. Diferentemente de operações que publicam rapidamente seus alvos, a atividade inicial do LockBit 5.0 manteve controles operacionais mais fechados: interfaces de afiliado exigem credenciais individualizadas e as vítimas não foram imediatamente listadas no site público de vazamento.

A nota de resgate do LockBit 5.0 passou a se identificar explicitamente como LockBit 5.0 e inclui um identificador pessoal usado para acesso a um portal privado de negociação. O prazo relatado para publicação de dados roubados é de 30 dias. A família apresenta variantes para Windows, Linux e ESXi, com infecções confirmadas majoritariamente em Windows e cerca de 20% voltadas a infraestrutura ESXi. A nova geração também introduz mecanismos reforçados de evasão e anti-análise, rotinas de criptografia mais rápidas e extensão de arquivo aleatória de 16 caracteres, recurso que dificulta detecções baseadas apenas em extensões fixas ou indicadores simples.

Superfície afetada

A superfície afetada é ampla porque o trimestre não aponta uma única tecnologia vulnerável, mas um ecossistema de extorsão que seleciona vítimas por capacidade de pagamento, sensibilidade de dados e custo de indisponibilidade. Organizações nos Estados Unidos responderam por aproximadamente metade dos casos publicados, mantendo a concentração em economias com maior probabilidade percebida de pagamento. O LockBit 5.0 teve cerca de 65% dos ataques identificados contra organizações norte-americanas, com o restante distribuído entre México, Indonésia e países europeus.

A distribuição setorial também manteve padrões conhecidos. Manufatura industrial e serviços empresariais representaram cerca de 10% cada um das tentativas de extorsão, combinando alta dependência operacional com dados comerciais, financeiros ou regulados. Saúde e organizações médicas permaneceram em torno de 8% das vítimas listadas publicamente, o que confirma exposição contínua, embora esses alvos também gerem maior pressão policial e reputacional contra os operadores. O risco para esses ambientes não se limita à cifragem: a publicação de prontuários, contratos, dados de funcionários e documentos financeiros pode criar obrigações legais e custos prolongados de resposta.

A Coreia do Sul teve aumento incomum no período, chegando à sétima posição entre os países mais afetados. O pico foi associado quase integralmente a Qilin, que listou 30 vítimas sul-coreanas, 28 delas entre agosto e setembro de 2025. Entre esses casos, 23 estavam no setor financeiro. A concentração foi atribuída publicamente a um servidor de nuvem comprometido operado por uma contratada de TI que atendia múltiplos fundos de private equity de médio porte, o que demonstra como fornecedores e ambientes compartilhados podem amplificar uma campanha sem exigir intrusões separadas em cada organização final.

DragonForce ampliou presença por meio de propaganda, recrutamento e serviços complementares de extorsão. O grupo declarou uma suposta coalizão com Qilin e LockBit em fórum criminoso, mas não houve evidência verificada de infraestrutura compartilhada ou operação conjunta. Mesmo assim, a marca publicou 56 vítimas no terceiro trimestre e promoveu um serviço de análise de dados roubados para afiliados que obtivessem mais de 300 GB de informações de empresas com receita anual superior a US$ 15 milhões. O objetivo técnico desse serviço é selecionar documentos comerciais, financeiros e estratégicos com maior poder de coerção durante a negociação.

  • Sites de vazamento de dados usados por mais de 85 grupos ou marcas ativas no trimestre.
  • Ambientes Windows, Linux e ESXi expostos à nova geração LockBit 5.0.
  • Setores com alto custo de indisponibilidade, incluindo manufatura, serviços empresariais, saúde e serviços financeiros.
  • Organizações dependentes de contratadas de TI, infraestrutura de nuvem compartilhada e acessos administrativos de terceiros.
  • Países com maior concentração observada: Estados Unidos em aproximadamente metade dos casos, além de campanhas relevantes em Coreia do Sul, Alemanha, Reino Unido, Canadá e outros mercados desenvolvidos.
Hunting e telemetria

A caça deve partir do princípio de que a publicação no site de vazamento é uma etapa tardia. Antes disso, a organização precisa procurar sinais de acesso inicial, reconhecimento, coleta de dados, compactação, transferência externa e preparação de criptografia. Logs de identidade devem ser correlacionados com VPN, acesso remoto, provedores de identidade, criação de tokens, alterações de MFA, logons fora de padrão e uso de contas de serviço em horários incomuns. Em ambientes com fornecedores, a análise deve separar ações esperadas da contratada de eventos que indicam movimentação para clientes, cofres de segredos, buckets, compartilhamentos de arquivos e consoles administrativos.

Em endpoints e servidores, a telemetria deve priorizar execução de ferramentas de enumeração, descoberta de domínio, varredura de compartilhamentos, cópia em massa, compressão de diretórios sensíveis e uso anômalo de utilitários administrativos. A ausência de um IoC único para todos os grupos torna importante detectar comportamentos, não apenas nomes de famílias. Para LockBit 5.0, a presença de notas identificadas como LockBit 5.0, extensões aleatórias de 16 caracteres aplicadas em massa e acesso a portal de negociação por identificador individual são artefatos relevantes depois da execução, mas não substituem a detecção prévia de staging e exfiltração.

Em infraestrutura ESXi, o hunting precisa cobrir acessos ao plano de gerenciamento, sessões SSH não usuais, alterações em snapshots, desligamento de máquinas virtuais, execução de binários não autorizados no host e manipulação de datastores. Como cerca de 20% das infecções confirmadas do LockBit 5.0 envolveram ESXi, a visibilidade em hipervisores deve ser tratada como requisito de resposta a ransomware, não como exceção. Logs de vCenter, autenticação administrativa e transferências de arquivos entre hosts podem indicar preparação de cifragem em escala.

A telemetria de rede deve buscar egress incomum para destinos não usuais, transferência volumosa antes de janelas de manutenção, uso de ferramentas de sincronização fora do inventário e conexões persistentes para infraestrutura controlada por terceiros. Em repositórios, CI/CD e armazenamento de documentos, a atenção deve se concentrar em downloads de massa, criação de arquivos compactados, leitura de segredos, exportação de bancos de dados e uso de contas com escopo acima do necessário. Publicações em sites de vazamento também devem alimentar processos de inteligência, mas a resposta não pode depender apenas de monitoramento externo.

  • Aumento súbito de leitura, cópia ou compactação de diretórios financeiros, jurídicos, RH, P&D e dados de clientes.
  • Logons administrativos fora de padrão em VPN, IdP, RDP, VDI, vCenter, consoles de nuvem e ferramentas de suporte remoto.
  • Execução de descoberta de domínio, enumeração de compartilhamentos e varredura de hosts a partir de contas que normalmente não realizam administração ampla.
  • Transferência de grandes volumes para destinos externos, especialmente antes de criptografia ou indisponibilidade percebida.
  • Notas de resgate com referência a LockBit 5.0, identificadores individuais de negociação e arquivos renomeados com extensões aleatórias de 16 caracteres.
  • Novas entradas de vítimas em sites de vazamento relacionadas a fornecedores, contratadas de TI ou parceiros com acesso ao ambiente da organização.
Mitigação

A resposta defensiva deve considerar que a fragmentação de RaaS aumenta a incerteza sobre reputação, suporte de descriptografia e previsibilidade de negociação. Estimativas de pagamento entre 25% e 40% dos ataques indicam redução de confiança no cumprimento das promessas dos operadores, especialmente em grupos menores e temporários. Portanto, a mitigação primária continua sendo capacidade própria de recuperação: backups imutáveis ou offline, testes frequentes de restauração, inventário de sistemas críticos e procedimentos de reconstrução de identidade, virtualização e serviços de diretório.

A primeira linha de redução de risco envolve identidade e acesso. Contas privilegiadas devem usar MFA resistente a phishing quando disponível, senhas únicas, escopo mínimo, separação entre administração de estáções, servidores, nuvem e virtualização, além de revisão de acessos de fornecedores. Contas de serviço precisam de rotação controlada, inventário de dependências e bloqueio contra uso interativo quando possível. Em ambientes com contratadas de TI, cada organização deve exigir segregação de tenants, trilhas de auditoria exportáveis, notificação de incidentes, revisão de chaves e comprovação de controles de acesso.

Para infraestrutura virtualizada, hosts ESXi e vCenter devem receber endurecimento específico: limitar acesso administrativo por rede, bloquear SSH permanente quando não houver necessidade, monitorar alterações críticas, manter correções aplicadas e impedir que uma credencial única permita desligar ou cifrar todo o ambiente. Backups de máquinas virtuais devem ser isolados das credenciais do domínio principal. A restauração também precisa ser testada contra cenários de perda de vCenter, corrupção de datastores e indisponibilidade simultânea de servidores de identidade.

A contenção durante um incidente deve preservar evidências antes de ações irreversíveis. Desconectar sistemas com exfiltração ativa, revogar sessões, suspender contas comprometidas e bloquear rotas de saída são medidas prioritárias, mas devem ser acompanhadas de captura de logs de identidade, EDR, firewall, proxy, DNS, VPN, vCenter, armazenamento e nuvem. Depois da contenção, a organização deve determinar escopo de dados acessados, sistemas cifrados, caminhos de movimentação lateral e possíveis fornecedores afetados. A comunicação regulatória e com clientes deve se basear em dados confirmados, não em declarações dos extorsionários.

A validação final precisa fechar o ciclo operacional. Isso inclui busca por persistência, contas criadas durante a intrusão, chaves de API expostas, tokens de nuvem, regras de encaminhamento de e-mail, tarefas agendadas, agentes remotos e túneis. Regras de detecção devem ser atualizadas para comportamento observado, não apenas para a marca do ransomware. Como afiliados podem migrar entre Qilin, LockBit, DragonForce, INC Ransom, Play ou operações menores, a defesa deve mapear técnicas de intrusão e exfiltração reutilizáveis, mantendo inteligência de marca como camada complementar.

  • Testar restauração de sistemas críticos a partir de backups isolados e registrar tempo real de recuperação por serviço.
  • Revisar MFA, contas privilegiadas, contas de serviço e acessos de fornecedores com foco em abuso de identidade.
  • Segmentar redes administrativas, servidores de arquivos, ambientes ESXi, backups e consoles de nuvem.
  • Monitorar e bloquear exfiltração volumosa por proxy, firewall, CASB, armazenamento em nuvem e ferramentas de sincronização não aprovadas.
  • Manter retenção suficiente de logs de IdP, EDR, VPN, DNS, proxy, vCenter, nuvem e armazenamento para reconstrução da cadeia de intrusão.
  • Preparar playbooks para sites de vazamento, incluindo verificação de dados expostos, preservação de evidências, comunicação jurídica e decisões de contenção.

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